quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Verdes anos


Foi quando o gerador desligou, como todos os dias às 10 horas da noite, que na escuridão mais lhe senti a alvura.
Quando, aleatoriamente, recebíamos cartas de elementos do Movimento Nacional Feminino, já eu lhe tinha notado a simpatia, o escrever escorreito e fácil. Na força voraz dos 20 anos, além do conforto à luz mortiça de candeia, também aquela doçura amaciava os exercícios masturbatórios que se faziam sem alarido, para alívio do corpo e da mente. As fotos das artistas e musas de cinema coladas na parte interior das portas dos cacifos, também nos povoavam a mente em momentos solitários. E quanto!
Ou isso...ou esperar pela LDG que trazia as meninas de Bissau até àquele fim de mundo, Geba acima até ao sitio de encontro ao Corubal,que o Patrão instalava numa tabanca previamente preparada, em risos de espera numa fila que parecia interminável, aonde se passava o tempo em risotas e larachas, quase sempre acabando com um “quando chegar a minha vez....vai parecer o Arco da Rua Augusta!”.
No bolso já morava o sabão asséptico e o tubo de pomada que teria que se enfiar membro acima, que arderia mais do que jindungo...mas que seria paga pequena para o alívio e prazer que se tinha tido antes. E ninguém fugia a essa paga, não senhor...porque seria bem pior apanhar o “esquenta”, que faria parecer uma simples micção, um roçar de mil estilhaços de granada às pinguinhas!
Fiquei a saber o nome dela mais tarde, que seria uma protegida de uma alta figura da nação e uma empenhada e eficaz dirigente de um movimento solidário e que, uns tempos mais tarde encontraria mais a Sul. A minha companhia foi designada para a escolta, enquanto em Zebros descia e subia rios acima, distribuindo mimos e discos que nunca seriam tocados por aquelas bandas...porque não havia onde fazê-los tocar. Nem ali nem em quilómetros em redor....havia um sacana de um gira-discos!
Falámos várias vezes, olhou-me e mediu-me....e a seguir , sem saber como, passei a ser designado para o grupo de escolta.
“Fique, porque preciso que me ajude a empacotar os presentes para a tropa”-disse.
O que se passou a seguir, naquela tabanca cómoda em que me disse para tomar banho, trocar de camuflado e que ficasse para o jantar, nunca o contei a ninguém mas, como um segredo de Polichinelo, toda a Companhia o previu, deduziu...e afirma. E foi!
Naquele bote Zebro dos fuzos de onde retirávamos os pacotes que sobraram do dia, viveu-se a ondulação, agitação, aflição e gemidos de um macaréu...em doca seca!
Na sabedoria dos seus quarenta e tais bem conservados, alvos e cheiro de perfume...fez-me sentir um menino na adolescência !
Aquela mulher que em sotaque de tia de Cascais me tratava por você e me dizia...”meta agora isso, se faz favor”...tirou-me a virgindade outra vez!
Técnica de "combate corpo-a-corpo", "golpe de mão", "passo-fantasma" e "queda na máscara" passaram, qual epifania, a ter mais que uma definição para mim.
Ao longo dos anos, o recorte do seu corpo branco- tão branco meu Deus!- contra o escuro da noite da Guiné é o que mais me lembro.
O prazer de ter feito coisas que nunca julgaria possíveis...também.
Na selva dos trópicos acontecem lutas mortais. Não só entre facções de gente diferente, mas também o eterno duelo presa/caçador na lei da sobrevivência da impiedosa selva.
Ali, em verdura dos meus vinte guerreiros anos aprendi que, qual paradoxo, até um indomável Leopardo amansa ...no poderoso orgasmo felino de uma corça.


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