sábado, 26 de setembro de 2015

Já não há canções de Amor?

Pegou na tesoura de modista, de gume férreo bem amolado, sem ter tempo sequer de se arrepender ou chorar e zás.....cortou o rabo de cavalo grosso e sedoso que lhe chegava ao quadril, de uma só vez.
Enquanto as lágrimas molhavam o papel de seda em que o embrulhou com mil cuidados, como se de um recém-nascido se tratasse, inabalável, despediu-se do cabelo que tinha prometido ao altar da Nª Srª da Saúde, caso ele escapasse.
Nesse mesmo dia, véspera do seu casamento, levou-o sem que ninguém visse ou tivesse tempo de lhe fazer perguntas a que não quereria responder ( ...sim, como haveria agora de prender o véu de noiva, com cabelo arrapazado e encaracolado, nada típico da época, e justificar o sacrifício e afronta à vaidade de uma idade, quase sempre sem razão?! Logo se via e pensaria que responder, que só não há solução para a morte.) e depositou-o aos pés da Senhora que morava no altar da igreja onde lhe diria que sim para toda a vida, no dia seguinte.
Quando ele regressou da Guiné, naquele ano de 74, encontrou-o magro da carência e nada parecido com um altivo Leopardo da 38ªCCMDS e, depois de muita teimosia e vencido pelo cansaço que o atormentava, lá foi ao médico...que lhe deu a triste notícia da sua doença pulmonar, ganha a custo de noites de cacimbo e roupa seca no corpo depois de esperar horas infinitas na bolanha.
Contava-lhe das saudades que tinha tido dela, de como se riam os camaradas do desvelo com que limpava a sua “costureirinha e namorada” ( assim chamavam à sua arma, os soldados que dela dependiam, em dias de guerra vida em perigo permanente!), porque era nela pensava, sempre seu oásis em tempos difíceis.
Tinha acabado uma guerra...e começava outra, mais sinistra e interior, daquelas que só se enfrentam, fantasmagóricas, com paciência infinita e muito querer.
Durante um ano, um comprido e custoso ano que passou na cama do hospital, recebeu todos os dias sem falhar um único, a visita daquela namorada risonha, que depois de um cansativo dia a costurar vestidos de madames, ainda tinha tempo de lhe levar uns mimos, à custa de escasso dinheiro que conseguia poupar e horas infinitas no eléctrico que a levava à outra ponta da cidade.
Adorava-lhe a personalidade, a beleza, a persistência, a amizade...e aquele longo cabelo que cheirava a verde e a luz de sol que nunca via. Amava-a.
Se em tempo de guerra há histórias de dor e perdas irremediáveis...também existem as mais belas e duradouras histórias de amor que tenho conhecimento.
Esta, destes dois amigos que tenho a sorte de conhecer, dura e permanece (e eu sou testemunha!)  enfrentando ventos, dias menos bons e dificuldades, até aos dias de hoje.
Quem disse? Sim, quem disse...que já não há canções de Amor? Quem?




Os maiores dias da minha vida

Ah, Deus meu....como era terrível aquele calor abafado dos trópicos. Tudo, tudo, punha à prova a nossa vontade. A Morte, que sempre nos rondava a cada passo, tudo fazia para nos levar com ela.
Como nos embalava na sonolência dos solavancos da picada, como nos dobrava a vontade com aquela sede de água limpa dos ribeiros frescos da nossa terra, como nos dispersava a atenção nos zumbidos infindos dos mosquitos que não nos deixavam dormir um par de horas descansados, como nos amolecia o corpo com a febre e desarranjo interior e, maldita, como nos oferecia os braços com promessas de calma... quando sangrávamos no capim!
Naquela viagem para Mueda, quando o rebentamento de uma mina estilhaçou o primeiro veículo da coluna, nos ensurdeceu e nos fez saltar como molas para a defesa...soube que a mim, aos meus irmãos que lutavam ao meu lado, nunca me levaria , traidora, num momento de engano.
Eu viveria, para contar!
Naquele dia, e em tantos outros que se seguiram, em que pusemos toda a nossa coragem, vontade e querer, lealdade e força, juventude e vida ao serviço da nossa Pátria, ganhei o direito de viver e venci a Morte...na ponta de um dilagrama!

((Foto: 3ª CCMDS,Gatos/ Moçambique, 1971)



Parirás na dor.

Nenhum de nós cinco, bravos da 2044,embrenhados até à exaustão e suor de canícula naquela mata de Cabinda...estava preparado para aquele imprevisto.
O passo fantasma, silencioso e eficaz, deixava ouvir todos aqueles barulhos da selva...até a mão em punho cerrado e levantado do camarada que ia à frente nos fazer estacar e apurar o ouvido.
Então ouvimo-lo nitidamente. Aquele gemido de sofrimento em agonia que nenhum moribundo consegue calar. Posição de fogo e ...segue, que um Comando não retrocede.
Na dureza do curso no CIC de Luanda, disseram-nos preparados para tudo. Tudo...mas não para aquilo, porra!
A cor de ébano daquela mulher deitada de costas, enrolada em capulana e que transpirava de ais, também pagava pelos pecados de Eva...e paria na dor!
Era nova, muito nova, quase uma menina. Como quase todas as africanas pré -adolescentes, que naquele calor infernal e húmido que “puxava corpo”, eram mães quando ainda deviam ter bonecas. Enfim...costumes.
Só tivemos tempo de a rodear e eu, sem saber o que fazer aparei-o para que não caísse.
-Que se faz agora?!-perguntou o Lopes, com cara de atordoado.
-Corta o cordão com a faca do mato pá, ou lá na tua terra nunca viste nascer vitelos ou cordeiros?( O Araújo, que vinha lá das terras da Beira Alta ,de família de marchantes e pastores, percebia da “poda”, estava visto!)
-Deves pensar que o Campo Pequeno, onde fica a minha casa lá em Lisboa, é alguma horta, não?
-Deixem-se de merdas e saiam-me daí! Parecemos os três Reis Magos, a vaca e o burro, aqui os cinco à volta do menino Jesus! Ainda vamos comer por tabela por estarmos aqui armados em parvos...e de flanco aberto!
Era letrado o nosso Cabo, acho que até tinha andado no seminário lá na Metrópole, porque aquilo que ele disse a seguir, naquela calma imperturbável e nervos de aço que sempre ostentava e que não tinha dado uma palavra no meio daquela confusão,(... e quase juro que lhe vi uma lágrima teimosa a marejar os olhos),nunca mais na vida me vai esquecer:
-Atentem no dia de hoje, malta. Obrigaram-nos a vir, mesmo sem querer. Tivemos que matar, para não morrer. Mas hoje, hoje rapazes, este nascer de vida aqui mesmo à frente dos meus olhos limpou-me a alma e, se acaso os tenho,lavou-me os pecados...também.
Cabinda...Cabinda...tão viva na minha memória, ainda.
( Foto: CCMD 2044/ Angola/ 73-75)




quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Bem vindos à Infantaria!

"(…) Benvindo à Infantaria. Este é o nosso dia-a-dia, o nosso trabalho. É uma chatice, nós detestamos, mas continuamos por duas razões. Primeiro, há nobreza e sentido nas nossas vidas. Nós somos (…) [uma] classe de guerreiros. Nós protegemos, nós vingamos. Segundo, todos os momentos na Infantaria são um teste. Se nós conseguirmos superar os piores dias como este, isso prova que somos uma raça à parte de todos os outros homens (…)” 
David Bellavia em "House to House" 

Um dia....


Gampará-Guiné, 1972
Um dia, daqui a muitos anos, talvez no dia em que eu fizer 64 anos...vou poder dizer o que estava a pensar quando me tiraram esta foto.
Vou poder dizer que prometi a mim mesmo que a minha vida ganharia cor nas telas que pintarei, que amarei muito a família que vou ter, que farei todas as engenhocas que imagino em noites mal dormidas, que prometo a mim mesmo nunca mais passar sede, que nunca perderei de vista os meus irmãos da 38 nem esquecerei os que tombaram, que serei o homem que quero ser...e que viverei, prometo, o melhor que souber e puder...os dias que ainda me faltam viver!
Se Deus me der a chance...prometo. Juro que prometo! Palavra....de “leão”!

Le monde est stone!

Gampará-Guiné, 1972
Porque o mundo que ainda me falta ver é tanto...não, não ficarei por aqui. 
"Aqui", conheci os dois lados da vida: o negro da carência, o sussurro da morte a cada silvo de munição cuspida de "costureirinha", os trilhos minados do medo, o passo fantasmagórico travado na sede, o tombar no capim de irmãos. Mas foi aqui também, qual epifania, ao lado de eternos camaradas, que conheci o melhor lado da vida.
Aquele que nos diz que temos que ir em frente, porque ainda nos falta caminho extraordinário para viver.
E será sempre assim, por esta perspectiva que verei o tanto que me falta trilhar: a minha.
E sabem,nem sequer me importo que outros digam que o mundo é redondo. Para mim, que estive no "outro lado" e voltei, será elíptico. Sim, elíptico. Como o desafio hercúleo...da dureza de uma bola de Rugby!