sábado, 26 de setembro de 2015

Parirás na dor.

Nenhum de nós cinco, bravos da 2044,embrenhados até à exaustão e suor de canícula naquela mata de Cabinda...estava preparado para aquele imprevisto.
O passo fantasma, silencioso e eficaz, deixava ouvir todos aqueles barulhos da selva...até a mão em punho cerrado e levantado do camarada que ia à frente nos fazer estacar e apurar o ouvido.
Então ouvimo-lo nitidamente. Aquele gemido de sofrimento em agonia que nenhum moribundo consegue calar. Posição de fogo e ...segue, que um Comando não retrocede.
Na dureza do curso no CIC de Luanda, disseram-nos preparados para tudo. Tudo...mas não para aquilo, porra!
A cor de ébano daquela mulher deitada de costas, enrolada em capulana e que transpirava de ais, também pagava pelos pecados de Eva...e paria na dor!
Era nova, muito nova, quase uma menina. Como quase todas as africanas pré -adolescentes, que naquele calor infernal e húmido que “puxava corpo”, eram mães quando ainda deviam ter bonecas. Enfim...costumes.
Só tivemos tempo de a rodear e eu, sem saber o que fazer aparei-o para que não caísse.
-Que se faz agora?!-perguntou o Lopes, com cara de atordoado.
-Corta o cordão com a faca do mato pá, ou lá na tua terra nunca viste nascer vitelos ou cordeiros?( O Araújo, que vinha lá das terras da Beira Alta ,de família de marchantes e pastores, percebia da “poda”, estava visto!)
-Deves pensar que o Campo Pequeno, onde fica a minha casa lá em Lisboa, é alguma horta, não?
-Deixem-se de merdas e saiam-me daí! Parecemos os três Reis Magos, a vaca e o burro, aqui os cinco à volta do menino Jesus! Ainda vamos comer por tabela por estarmos aqui armados em parvos...e de flanco aberto!
Era letrado o nosso Cabo, acho que até tinha andado no seminário lá na Metrópole, porque aquilo que ele disse a seguir, naquela calma imperturbável e nervos de aço que sempre ostentava e que não tinha dado uma palavra no meio daquela confusão,(... e quase juro que lhe vi uma lágrima teimosa a marejar os olhos),nunca mais na vida me vai esquecer:
-Atentem no dia de hoje, malta. Obrigaram-nos a vir, mesmo sem querer. Tivemos que matar, para não morrer. Mas hoje, hoje rapazes, este nascer de vida aqui mesmo à frente dos meus olhos limpou-me a alma e, se acaso os tenho,lavou-me os pecados...também.
Cabinda...Cabinda...tão viva na minha memória, ainda.
( Foto: CCMD 2044/ Angola/ 73-75)




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