terça-feira, 6 de outubro de 2015

"Adeus, até ao meu regresso!"

"..E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte."

Foto: Embarque da Companhia de Caçadores 95-Batalhão 92, no navio Niassa, a 21 de Abril de 1961, primeiro contingente a chegar a Angola, no eclodir da Guerra do Ultramar.
Marcado com um círculo está o meu pai, Sargento Chefe de Infantaria Victor Gonçalves, na altura soldado voluntário com 18 anos.



Gampará-GuinéBissau

Ainda hoje, no desespero com que nos obriga a comer a última folhinha de alface da terrina da salada, eu sei que é verdade que nos 730 dias que passou em Gampará, aturdido em trincheira com o quase permanente arraial dos tiros de canhão sem recuo e mísseis (soviéticos?) dos “turras”, a beber água de um poço profundíssimo que entupia o sorvedouro com rãs e tão pouca que apenas dava para o rancho, em que o banho era tomado debaixo do pingante do telhado de zinco ,esperando de sabão e toalha na mão que viesse a chuvada depois do aviso do trovão ao longe... que os parcos legumes frescos que comeu se contam pelos dedos da mão.
Sei-o na raiva com que não deixa ficar nada que seja verde no prato, mesmo que esteja já satisfeito...que é verdade!
Gampará ficava apenas a 60 km de Bissau e facilmente alcançável rio Geba acima, tal como fez o navegador Diogo Gomes no ano de 1456, numa planura que faz sentir à altura de 6 metros as marés do Atlântico. Um dos rios que são dele afluentes, o Corubal, faz no subir de maré alta o estranhíssimo “macaréu”, que ao fazer uma onda de quase três metros rio acima, obriga a saltar das pirogas os navegantes de “água-que -deveria-ser -doce", (...mas é apenas salgada e barrenta!) em verdadeiro pânico. A gigantesca onda varre tudo à sua passagem, galgando margens até se desfazer vencida por uma cota mais alta.
Do outro lado do rio mesmo em frente da península de Gampará fica Porto Gole, onde em "zebros" foram buscar gatos bravos, que os esfarraparam de arranhadelas na renitência de se verem metidos em sacos de sarapilheira que antes estavam cheios de batatas, para debelarem a praga de ratos que assolou a península dos “Herdeiros de Gampará”...e a preciosa despensa da Companhia.
Durante dois anos, apenas interrompidos por uma breve visita à Metrópole que mal deu para afogar as saudades, a Companhia de Caçadores 4142 sobreviveu e resistiu, em surdez colectiva ao tiroteio cerrado, à escassez de alimentos frescos, ao racionamento da água potável, aos mosquitos e ratazanas, ao paludismo, ao calor húmido e abafado dos trópicos,ao macaréu...sucumbindo apenas às intermináveis barrigas de "lutador de Sumô” que lhes fazia a cerveja, mesmo no contragosto de quem nada mais tem de fresco para beber. Nas fotos que enviava ,quase sempre em tronco nu , calções e grande bigode, invariavelmente a legenda dizia, depois dos beijos e saudades: “Pareço o Gungunhana!”
O 25 de Abril apanhou-o de surpresa em Bissau enquanto saia do Banco, fardado e de maleta preta com o dinheiro para pagar à Companhia, que preparava o tão ansiado regresso.
Às pauladas que o puseram como Cristo , a “esguichar sangue” cara abaixo, que lhe deu a turba eufórica de Guineenses que festejavam a “queda do Império”, reagiu calado e aceitou-as sem se defender em troca de proteger a mala contra o peito....com o único “passaporte” que lhes garantiria o regresso.
Depois de dias a fio com músculos retesados da vigília, noites de sonos interrompidos e nunca silenciosos no medo de ter a garganta cortada à catanada, encontro agora explicação para os saltos de pânico que ainda hoje, volvidos tantos anos, dá em grito de “Que foi isto?!, quando no silêncio de uma casa na hora de almoço...se deixa cair um garfo estridente, na tijoleira da cozinha. Chama-se a isto , sei-o agora, “Síndrome de Guerra”!

Foto: 21ª CCMDS a transportar um ferido


Ao Soldado Desconhecido


Tenho a certeza absoluta, aquela que me dá os anos e a experiência, que as divisas e dísticos que acompanham os Brasões de Armas das diversas unidades militares não são tomados de ânimo leve a quem por lá passou. Tornam-se, levados “à letra”, numa forma de conduta e uma ordem inquestionável que damos ao nosso consciente nas mais diversas situações a que a vida nos expõe. Desde um “ Nem um passo p’rá retaguarda” quando defendemos o que achamos correcto, a um grito de “Mama Sumae” na disponibilidade com que nos atiramos a tarefas titânicas, ou a um “Que nunca por vencidos se conheçam”, quando em limite de esforço estamos prestes a desistir. E há lá coisa mais poética do que um “ Acende em ti a chama de seres...!”, seja o “seres” lá o que for? Professor, pai, pintor, ou até...Precursor? Ou um “Semper Fidellis” na rectidão da tua própria consciência? Não, não há.
Sempre achei que os monumentos são um sitio de reunião e saudade, mas não tanto de lembrança. O meu ao “Soldado Desconhecido” , mora dentro da minha personalidade, já que o acto que um deles teve para comigo, marcou-me para a vida inteira.
Morei 5 anos num Destacamento do DGMG em Sacavém, ou Forte/Reduto de Monte Sintra, se quiser ser mais correcta. Os túneis que se estendiam por baixo de terra , repletos de material bélico, obrigavam a um cuidado e protecção exponenciados. O portão de entrada para o perímetro, mesmo ao lado da lendária Fábrica da Loiça de Sacavém, ficava a um escasso metro da concorridíssima Estrada Nacional. Dentro do perímetro exterior ficavam as habitações do pessoal paramilitar e duas ou três famílias de militares que lá moravam, na qual me incluía. O acesso ao Forte propriamente dito, instalado num perímetro interior, fazia-se tal como num castelo medieval, por um ponte levadiça e estava sempre guardado por vários sentinelas e os seus inseparáveis cães.
De cada vez que regressava da Universidade, tinha que esperar ao portão que um sentinela me avistasse e viesse abri-lo com uma enorme chave a que dava três voltas e corresse os ferrolhos enferrujados. Isto demorava sempre uns bons 10 minutos, período esse em que , tal como “ovelha em fojo, exposta à voracidade do lobo” eu era brindada pelos automobilistas que passavam com as mais variadas e horríveis injúrias, pois acreditavam, na sua ignorância de que aquela era a minha casa, que eu estava ali para uma “rave party” com os soldados, executando a “mais velha profissão do Mundo”. A raiva não diminuía... nem os insultos, mesmo quando aprendi a vestir as calças que levava na mochila ao sair na paragem do autocarro, em vã tentativa de mostrar menos pele do que uma rapariga de 17 anos gosta de mostrar, para calar as invectivas. Nada surtia efeito...e eu não conseguia parar as lágrimas de raiva que rolavam , misto de impotência e dor, na mossa que aquilo me fazia.
Os soldados davam conta do que se passava e corriam, solidários e apressados, a executar a abertura do portão, diminuindo o melhor que podiam o tempo de espera, pois foi palavra que foi passando entre eles sem que fosse preciso nada dizer.
Num dia particularmente difícil , em que um exame não me tinha corrido nada bem, as lágrimas em catadupa fizeram com que um soldado, jovem como eu ou pouco mais velho, depois de me abrir o portão, vencesse a sua timidez e me dissesse, depois de me parar o caminho em cara baixa, com a sua mão leve sobre o meu ombro, “ Espera. Não ligues ao que esses mal educados te dizem. Não são importantes. E cá dentro ...és soldado como nós. Não te esqueças do que diz este crachá...- disse segurando-o com a mão-...as tuas lágrimas, são como o nosso material bélico, percebes? Não as desperdices...em quem as não mereça!”
Assim fiz. Isso ajudou-me naquele momento e também vida fora de uma forma que ele nunca imaginará. Fi-lo com as lágrimas, com o tempo, com a vontade, a tristeza ou alegria, e...até com o Amor!Não me lembro do seu nome nem sei quem era, mas é a esse “Soldado Desconhecido” que presto a minha homenagem ...e a quem poria nas mãos, sem hesitar, a minha Vida. Tal como tudo o que valorizamos, também o confiar se dá...a quem, valorosamente, o mereça." QUE NÃO NO EMPREGVE EM QVEM NO NÃO MEREÇA"




Natal na Guerra

Não sei se vos acontece o mesmo, mas comigo à medida que avanço na idade, as memórias mais dolorosas de toda uma vida assomam-me ao espírito cada vez mais nítidas e , estranhamente, vou-me apaziguando com elas.
Uma das sensações que mais me abalam é a Saudade. Esta palavra , que apenas existe na nossa língua e não tem tradução para outros idiomas, define a Alma Portuguesa como nenhuma outra. Nesta época de Natal, infalivelmente, ataca-nos com a fúria de um tufão e procuramos-lhe remédio como se não houvesse amanhã.
O Natal mais longínquo que recordo é o 1967 e como não poderia deixar de ser, é uma lembrança ligada ao meu pai e à sua condição de militar em comissão no Ultramar, desta feita em Moçambique, distrito do Niassa, em Vila Cabral que hoje se chama ,coloridamente, Lichinga.
Na aflição e angústia perpétua em que viviam as famílias da Metrópole que tinham alguém do “lado de lá, tão longe”, ( raras eram as que não tinham um filho, um pai, um primo, um irmão...), numa época em que as facilidades de comunicação não eram, nem de perto nem de longe, o que são nos dias de hoje, receber algum sinal de que estavam bem e a salvo, era motivo de festejo e lágrimas de alívio.
Os “bate-estradas” eram os mais comuns. Nesses aerogramas amarelos de papel fino e em que se aproveitava todo o parco espaço para escrever,que chegavam o mais rápido possível porque eram recolhidos de avião, concentrava-se todo o nervosismo da espera , na dualidade da vontade em saber o que lá vinha, que tanto poderia ser uma boa ...ou uma fatal notícia. Esperava-se a chegada do carteiro com igual ansiedade, tanto em aldeias remotas de Trás-os-Montes, num isolado monte do Alentejo ou num bairro qualquer da capital.
As fotografias pequenas,cuidadosamente embrulhadas nas duas ou três folhas de carta em que se espraiavam as palavras de saudade, eternizadas para sempre no preto&branco de margens recortadas, com legendas na melhor caligrafia desenhada a tinta permanente e sempre com a cuidadosa informação de data e local, eram as mais desejadas. Mostravam sorrisos que escondiam o medo, cenários tropicais com capim alto, negras envoltas em kapulanas e peito à mostra com pequenos transportados nas suas costas, animais selvagens que nunca imaginaríamos nem em sonhos e caça grossa abatida, que seria nesse dia o rancho ao jantar.
Depois havia a “cereja no topo do bolo”....que era a sorte de em nervosismo de unhas roídas da espera de horas em frente à televisão, por acaso do destino, numa daquelas mensagens que uma equipa gravava quase dois meses antes para se ter tempo de ser editada e enviada convenientemente, alguém a dizer com uma rapidez em atropelo de palavras “ De Vila Cabral, Niassa, fala o 1ºSargento de Infantaria Victor Gonçalves, que deseja à sua querida esposa, filha muito amada e restante família na Metrópole, um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de prosperidade. Adeus...e até ao meu regresso!”. Isso sim....era o melhor presente que qualquer família poderia ter !
Nesse ano, poucos dias antes do Natal, eu e a minha mãe recebemos um presente diferente: um embrulho com duas estranhas bobines de fita gravada, com instruções precisas de como e quando deveriamos ouvir. Cumpriu-se o estipulado e pediu-se emprestado um leitor diferente, enorme e pesado, que se pôs na mesa , ao lado das rabanadas e aletria, em frente à cadeira vazia do lugar do meu pai. Quando a minha mãe carregou no botão do “play”, apagou-se a luz vermelha do “pause”...e na magia de uma luz verde...começamos a ouvir a voz do meu pai, serena e doce como sempre me recordava...e que durante quase uma hora falou connosco como se ali estivesse, na segurança do seu braço por cima do ombro da minha mãe e na ternura que era estar no seu colo. Eu, que ainda não tinha três anos e não entendia muito bem como podia sair a voz do meu pai daquela estranha caixa, encostava o meu olho à luz verde e perguntava”....paizinho, não vês aqui o meu olhinho?”. A minha mãe não mo conseguia explicar, com voz entrecortada de soluços. E durante uma hora...o meu pai esteve ali . E mesmo sem a sua presença conseguiu, uma vez mais, ser o Soldado defensor de quem precisa, pois na distância de um oceano e lonjura de um continente...matou-nos de uma penada com o seu tiro certeiro, a solidão,a angústia, o medo e as saudades.
Prendas de Natal com fitas e laçarotes? Não, obrigada. Não satisfazem quem teve, mesmo na distância de 45 anos atrás...um presente de grandiosidade do Amor como esse. Nunca NADA me chegará....e também TUDO me basta.





Respeito!

Desde tenra idade e de cada vez que no RI13 eu lia “Palpita um peito d’Aço em cada farda...” eu levava a coisa ao “pé da letra” e deslindava o mistério com a leveza infantil de pensar que o deveria ser na verdade, por causa das medalhas que briosamente ostentavam os soldados nas suas fardas engomadas em dia de parada militar. Atribuía-lhes grande valor pecuniário , à semelhança do áureo trancelim minhoto da minha avó Ana, que saia do baú em dias especiais e que para lá retornava depois de cumprir a sua missão de abrilhantar o traje colorido, que sempre fez questão de envergar no orgulho de ser quem era.
Mais tarde, nas brincadeiras em que se premiavam os mais afoitos com medalhas feitas de caricas de Sumol, percebi que o valor não estava no metal de que eram feitas, mas sim na acção de grandeza e coragem que representavam. Para as ganharmos gastávamos a última réstia de fôlego nas corridas ou engolíamos o pânico das vertigens para subir ao pinheiro mais alto. Ganhávamos calças rotas e resina teimosa nas mãos , além dos dois dias de castigo,mas também o respeito dos nossos pares que passavam a olhar-nos e a ouvir-nos com outra deferência e atenção. “Ganhei-as...porque as mereci! Esforcei-me e dei o meu melhor para isso.” –pensávamos.
Foi com este sentimento que cresci e por isso fico a raiar a consternação, quando, seja em que situação for, vejo falar delas com desdém, reduzindo o seu simbolismo a uma “fogueira de vaidades”. Constato que , não tanto com os atletas ( que se esforçam em equipa, mas a maior parte das vezes em desafio individual) mas com os militares, a “vox populi” a quem servem, é extremamente redutora e até malévola na apreciação que faz a quem, com a maior legitimidade, as ostenta.
Se a maior parte dos “comentadores de ocasião”, se desse ao trabalho de empregar apenas uma quota parte do tempo que gasta a ver programas de “estupidificação em massa” e procurasse entender um pouco do seu significado, não diria as barbaridades que se permite, em lassidão de certezas de sofá, dizer.
Quando vejo um peito ornamentado como o da foto, fico boquiaberta com o que ali se espraia, o percurso de vida que ali se revê, as atitudes de coragem, honradez, exemplo e bravura que traduzem. Seja ele de quem for, o legítimo possuidor de tal “curriculum vitae”, merece desde logo o meu respeito.
Há um código para a sua aplicação, que faz com que se prendam em primeira fila, e da direita para a esquerda, as que são de Valor Militar. E acreditem que para ter uma Cruz de Guerra, alguém cometeu um acto da maior bravura em defesa de camaradas ou civis, mesmo com o risco da própria vida! Algumas são representativas de toda uma Unidade, personificada na pessoa do seu Comandante, outras de serviços exemplares e demasiado importantes para toda uma Nação, outras de comissões em territórios onde o nome de Portugal foi bem longe e nos tornou conhecidos como “bravos e valerosos”, como gostamos de acreditar que somos. As comemorativas são as de última fila e cada uma tem um significado não menos importante que todas as outras.
Ganharam-nas. Mereceram-nas! Podem e devem, à semelhança do cordão de ouro da minha avó, sair do baú quando o seu dono o entender e abrilhantar, orgulhosamente e até com vaidade- porque não?- quem se esforçou até à última gota de sangue, suor e lágrimas nas milhentas horas gastas, para as merecer.
Há uns dias li uma frase proferida por um desses homens que muito admiro e respeito, que sintetiza tudo o que penso acerca deste assunto. Questionado sobre qual seria o peso em quilos de tal “parafernália” no seu peito, com a simpatia , inteligência e boa disposição que o caracteriza, respondeu:” Pesa 31 anos de carreira e passagem por muitos sítios, alguns ...pouco simpáticos !”
O que eu não consigo, por muito que o tente,é perdoar ao Rui Veloso ( que adoro!)...a malfadada “Valsinha das Medalhas”, onde contraria tudo o que aqui afirmei. Ao menos...”safa-se” a música, que é gira. :)


Foto: Tenente Coronel COMANDO Marcelino da Mata


Quem se lembra da FBP 9mm?

Todas as famílias , a par dos “esqueletos no armário”, possuem termos e citações que só eles entendem. Na minha há uma que ficará eternamente ligada aquela arma, que nós dizemos em tom de riso ser parecida com uma embalagem de silicone no seu carregador, que é a mítica FBP 9mm.
“A FBP é uma pistola-metralhadora projectada no final da década de 1940 por Gonçalves Cardoso, Major de Artilharia do Exército Português, combinando as funcionalidades da MP40 alemã e da M3 americana. O resultado foi uma arma de confiança e com baixos custos de produção.
A arma acabou por ser produzida pela Fábrica de Braço de Prata (FBP) em Lisboa, com cuja sigla foi baptizada.”( in Wikipédia).
Em 1961, o meu pai fazendo jus à tradição familiar que vem de longe de atiradores certeiros, numa prova de Pentatlo Militar feita em Espinho ( com elementos de todas as unidades do país), conseguiu ser escolhido para representar Portugal na Alemanha, ao obter a melhor pontuação na prova de tiro de precisão com a Mauser (arma de repetição em que tem que se puxar a culatra atrás para dar o tiro seguinte), a uma distância de 100m para um alvo em movimento, em que acertou 9 dos 10 tiros de 2 carregadores de 5 munições( sendo também necessária a sua substituição) no tempo de 1 minuto.
O rebentar da Guerra Colonial gorou-lhe a viagem até à terra dos “bofes”, coisa que ainda hoje lamenta, uma vez que em 21 Abril desse mesmo ano,a viagem que lhe estava destinada era outra: com a sua companhia de Caçadores 95/ Batalhão de Caçadores 92 , em 12 dias de enjoos e “carga ao mar” no mítico Niassa, foi a 1ª tropa a desembarcar em Angola.
Com a primeira versão da FBP que apenas fazia tiro de rajada (mais tarde foi modificada, sendo-lhe adicionada a opção de semi-automático), arma nervosa que sem delicadeza vomitava de uma só vez o seu carregador de 32 munições, o meu pai ganhou fama de “domador” da dita-cuja em terras de “além –mar”, ao conseguir apenas com a sensibilidade no gatilho, marcar a cadência da marcha ao som do tiro ( tan...tan...tan.trrram!).
Esta história ficou para sempre aliada à precisão e empenho com que se fazem todas as coisas e tarefas na nossa família, que continua a manter a boa tradição de atiradores certeiros, sejam homens ou mulheres (perdoem a imodéstia mas diz o meu pai que acerto com arco, pistola, revólver,carabina, caçadeira, arma de pressão ou até uma fisga...no “buraco de uma agulha”!) e agora no meu filho, que na sua primeira prova de tiro a 100m na instrução militar, me mandou uma SMS a dizer que acertou em 19 de 20, sabendo que iria ficar orgulhosa. Mandei outra de volta a dar-lhe os parabéns e também com a pergunta: “Estiveste bem, mas para seres exímio... sabes o que ainda te falta?”. A resposta veio célere, certeira e com cheiro a pólvora de munição real, juntamente com um “smile sorridente”:
“Sim, sei. Falta-me “tocar caixa” com a FBP, como o avô! :D”
Foto:  PR Craveiro Lopes em
 Avenida da Liberdade, 1955.


“ Palpita um peito d’aço em cada farda. Do 13...nem um passo p'rá retaguarda!”

Percebo a revolta. Entendo-os quando dizem “naquele tempo é que era difícil!”, porque sem escape a um Destino que não escolheram, viam o tamanho da sua insignificância perante o “interesse nacional” para quem a sua vida pouco valia, bem patentes na expressão “Carne para Canhão”. E eram!
Quando a Companhia de Caçadores 95, primeira tropa a pisar solo angolano e instalada num Seminário ainda em construção, depois de ter marchado garbosamente sob os aplausos e “vivas!”da populaça pelas principais avenidas de Luanda, abriu os caixotes de material para se guarnecer...ficou estilhaçada como se as granadas ferrugentas que lá vinham tivessem explodido ali mesmo, na ponta de um dilagrama: material a que nunca tinha sido feito “Auto de Incapacidade”ou “Ruína Prematura", tal como capacetes sem alça, panos de tenda esfarrapados, marmitas e cantis deformados e inutilizados, armas sem percutor e muito mais....seriam o material que os acompanharia na desgraça. Viram que, quem lhes tinha atribuído aquele material, contava que pouco durassem, pois a quem se augura uma curta vida...qualquer coisa serve. Depois da queixa apresentada, pelo Comandante de Companhia ao QG, receberam material novo e a noticia de que "alguém"da unidade de origem de tal sucata, tinha sofrido uma punição e apanhado uma “castanhada valente”, como o meu pai gosta de dizer.
Para a primeira operação que fizeram e que apenas deveria durar 8 dias, foi-lhes dito para apenas meterem no saco de bagagem e bornal o menos possível (1 toalha, 1 pano de tenda, 1 manta, 1 cuecas e 1 par de sapatilhas)....e que depois do ano inteiro que acabaram por ficar sem regressar a Luanda, fez com que passassem 365 dias a dormir no chão e parecessem os figurantes de “Aljubarrota”, quando sem garbo e de olhar vago, esfarrapados e magros como cães vadios, voltaram a passar naquelas avenidas de má-memória.
A Guerra Clássica para que tinham sido preparados (com inimigo do “outro lado”, separados por terra de ninguém) foi “trunfo inglório”, naquele mato em que avançavam em coluna e abriam caminho à catanada, boquiabertos (tanto os homens como as pacaças, que paravam o seu lento ruminar a tentar perceber que estranho "bicho" era aquele) pelo que viam, na surpresa de uma Guerra de Guerrilha, em que tinham que se procurar posições inimigas, escondidas em terreno que conheciam como a palma das mãos e atacando sempre de emboscada.
O clima e os animais também se juntaram no “abate” daqueles intrusos, pois muitos ficaram cegos no lançamento preciso de cobras-cuspideiras e sofreram a dor aguda e venenosa de escorpiões que se lhes enfiavam na farda pendurada nas árvores , que secava do suor e da canícula, enquanto os seus donos descansavam um pouco em camas de capim. As mordidelas de mosquitos, malária, paludismo e desarranjo interior que se ganhava no desespero de beber água de charcos, roubava-lhes as tão preciosas forças, que deveriam mantê-los duplamente alerta para todos os perigos que não conheciam e foram pagos em vidas de jovens, que deixaram um País sangrado de toda a força juvenil de uma geração.
No rebentamento de minas anti-pessoais ligadas a destruidores "fornilhos", engoliram as lágrimas na procura de algum pedaço dos camaradas vaporizados, que sentiam no dever de mandar no caixão que seria devolvido às famílias. Fizeram-se homens à força na certeza de que seriam os próximos a tombar. Retesaram os músculos massacrados da marcha para não lamentarem as saudades de quem lhes era querido e trocavam o medo por visões de um lar bem longe, onde tinham a certeza que fervia serenamente num pote ao lume, uma sopa de couves e feijões.
Sem entenderem bem o porquê, puseram sempre o máximo no mínimo que faziam, porque eram de raça indómita e juraram, perante a bandeira, mesmo com o risco da própria vida, não darem nem um passo à retaguarda.
Ficaram, na desgraça, unidos para sempre como verdadeiros irmãos e cinquenta anos depois nas comemorações dos 50 anos da sua partida, no RI 13 a que chamam “a nossa casa”, abraçaram-se com a força de uma vida os que restavam, lavados em lágrimas contidas durante meio século!
Eu...chorei também.
“ Palpita um peito d’aço em cada farda. Do 13...nem um passo p'rá retaguarda!”
( Foto: Navio Niassa/ Batalhão de Caçadores 95 em 21 de Abril de 1961)





Quanto vale um Soldado?

“As palavras "soldo" ("remuneração por serviços militares") e "soldado" ("homem de guerra") têm sua origem no nome da moeda romana, com a qual os soldados romanos eram pagos” In Wikipédia
O ritual de recebimento do “pré” era , tal como na parada, executado a um ritmo próprio. No Destacamento do DGMG de Sacavém onde morei largos anos, era feito pelo meu pai, que me deixava assistir de um canto, desde que eu me tornasse ( como em puro exercício de camuflagem) praticamente invisível. Da fila formada na porta do gabinete , avançava um soldado que, em continência , dizia, “apresenta-se o soldado nº tal, a fim de receber o seu pré”. Aceite o pedido, recebia o dinheiro com a mão direita( se não estou em erro), passava-o atrás das costas para a mão esquerda e enfiava-o no bolso. Ficava a pensar como, por tão pouco, se dispunham a "arranhar" tanto! Nova continência, rodar nos calcanhares e sair. Sei de alguns casos em que se recebe o pré na boina, ou de outra forma específica. Penso que nos dias de hoje já não será assim, mas aquele ritual, fascinava-me.
O pré, porque o soldado está a soldo, era o seu pagamento pelo serviço que prestava. Depois de lhe ser deduzida a quantia para o seu alojamento, fardamento e alimentação,o que no final lhe era passado para as mãos era quase irrisório. Sim, porque o soldado paga o seu mantimento! Não come e dorme à custa do Estado, como é comum por aí ouvir dizer. Se há dinheiro que vejo por muitos chorado, é o “pré” dos soldados...mais uma (das imensas!) injustiças que lhes fazem.
Se não fosse a vontade e abnegação, na certeza de que será o primeiro a “marchar” se for caso disso, para que quem lho lamenta fique seguro atrás da sua linha de defesa, duvido que apenas por aquela “migalha” muitos outros avançassem.
E pensem comigo: quanto vale uma vida humana, de peito "aberto às balas"? Mais, infinitamente mais, que um parco pré, com toda a certeza.
E se ainda te restarem dúvidas, pensa, ...quanto vale a defesa da TUA?



"Heróis do mar...."

Marcham com o mesmo garbo da sua juventude, porque apesar dos anos lhes travarem o passo, a alma corajosa e voluntária continua a mesma.
A força com que dizem que estão prontos, se assim necessário for, atesta e abona em favor do seu carácter verdadeiro e único.
Não vergam à idade, nem a enfermidades injustas que os fazem continuar pela vida à "velocidade de cruzeiro", mas sempre, sempre em marcha.
Falam e contam ,de voz embargada por nó teimoso na garganta,dos companheiros que tombaram e riem como se tivesse sido fácil, das provações e medos que passaram. Estavam juntos e isso...era tudo o que de maior valor poderiam ter!
Esgotaram a juventude e os anos de glória numa Pátria que nem sempre os amou e correspondeu à sua entrega.
Continuam a ser estranhos entre civis , porque uma farda apenas identifica um militar...mas não o define.
Foram, como só eles souberam ser,ímpares e bravos soldados.
Continuarão a ser, dentro do peito e vida fora, nas lágrimas que não sustêm...num qualquer hastear de bandeira ao som da Portuguesa. "Heróis do mar....".

( Foto retirada do site "Operacional" :http://www.operacional.pt/16º-encontro-nacional-de-combatentes/ )


"♪♫Olhem bem, sintam respeito, eles têm asas ao peito!♪♫"

É deveras compensador,conhecer esta gente excepcional ao longo da vida.
Gente que teve, de algum modo, vivências semelhantes nos mesmos lugares e, por coincidência, até nome igual àquele que me deu vida. E de um estranho modo, é como se um bocadinho da minha saudade se fosse atenuando, porque ali a dar-me um abraço, estava alguém que também calcorreou aqueles 3km de picada sangrentos que ligavam Gampará ao cais no rio Corubal.
Num encontro de Comandos, também cabem outros irmãos. Sim, irmãos! Porque embora a boina seja de cor diferente...a Guerra foi igual, arrasadora e cobradora de vidas, para todos eles.
Este senhor é o Victor Tavares, 1º Cabo Paraquedista da CCP12, que esteve na Guiné em 72/74, companhia que povoou Gampará imediatamente antes da 38ªCCMDS, que seria posteriormente rendida pela CCaç4142, da qual o meu pai, Sarg.Chefe de Inf. Victor Gonçalves, fazia parte.
Olhem bem, sintam respeito, ele tem asas, honra , irmãos tombados e memórias, ao peito!
Um forte abraço ao Victor Tavares e a todos os Paraquedistas de Portugal.