terça-feira, 6 de outubro de 2015

Respeito!

Desde tenra idade e de cada vez que no RI13 eu lia “Palpita um peito d’Aço em cada farda...” eu levava a coisa ao “pé da letra” e deslindava o mistério com a leveza infantil de pensar que o deveria ser na verdade, por causa das medalhas que briosamente ostentavam os soldados nas suas fardas engomadas em dia de parada militar. Atribuía-lhes grande valor pecuniário , à semelhança do áureo trancelim minhoto da minha avó Ana, que saia do baú em dias especiais e que para lá retornava depois de cumprir a sua missão de abrilhantar o traje colorido, que sempre fez questão de envergar no orgulho de ser quem era.
Mais tarde, nas brincadeiras em que se premiavam os mais afoitos com medalhas feitas de caricas de Sumol, percebi que o valor não estava no metal de que eram feitas, mas sim na acção de grandeza e coragem que representavam. Para as ganharmos gastávamos a última réstia de fôlego nas corridas ou engolíamos o pânico das vertigens para subir ao pinheiro mais alto. Ganhávamos calças rotas e resina teimosa nas mãos , além dos dois dias de castigo,mas também o respeito dos nossos pares que passavam a olhar-nos e a ouvir-nos com outra deferência e atenção. “Ganhei-as...porque as mereci! Esforcei-me e dei o meu melhor para isso.” –pensávamos.
Foi com este sentimento que cresci e por isso fico a raiar a consternação, quando, seja em que situação for, vejo falar delas com desdém, reduzindo o seu simbolismo a uma “fogueira de vaidades”. Constato que , não tanto com os atletas ( que se esforçam em equipa, mas a maior parte das vezes em desafio individual) mas com os militares, a “vox populi” a quem servem, é extremamente redutora e até malévola na apreciação que faz a quem, com a maior legitimidade, as ostenta.
Se a maior parte dos “comentadores de ocasião”, se desse ao trabalho de empregar apenas uma quota parte do tempo que gasta a ver programas de “estupidificação em massa” e procurasse entender um pouco do seu significado, não diria as barbaridades que se permite, em lassidão de certezas de sofá, dizer.
Quando vejo um peito ornamentado como o da foto, fico boquiaberta com o que ali se espraia, o percurso de vida que ali se revê, as atitudes de coragem, honradez, exemplo e bravura que traduzem. Seja ele de quem for, o legítimo possuidor de tal “curriculum vitae”, merece desde logo o meu respeito.
Há um código para a sua aplicação, que faz com que se prendam em primeira fila, e da direita para a esquerda, as que são de Valor Militar. E acreditem que para ter uma Cruz de Guerra, alguém cometeu um acto da maior bravura em defesa de camaradas ou civis, mesmo com o risco da própria vida! Algumas são representativas de toda uma Unidade, personificada na pessoa do seu Comandante, outras de serviços exemplares e demasiado importantes para toda uma Nação, outras de comissões em territórios onde o nome de Portugal foi bem longe e nos tornou conhecidos como “bravos e valerosos”, como gostamos de acreditar que somos. As comemorativas são as de última fila e cada uma tem um significado não menos importante que todas as outras.
Ganharam-nas. Mereceram-nas! Podem e devem, à semelhança do cordão de ouro da minha avó, sair do baú quando o seu dono o entender e abrilhantar, orgulhosamente e até com vaidade- porque não?- quem se esforçou até à última gota de sangue, suor e lágrimas nas milhentas horas gastas, para as merecer.
Há uns dias li uma frase proferida por um desses homens que muito admiro e respeito, que sintetiza tudo o que penso acerca deste assunto. Questionado sobre qual seria o peso em quilos de tal “parafernália” no seu peito, com a simpatia , inteligência e boa disposição que o caracteriza, respondeu:” Pesa 31 anos de carreira e passagem por muitos sítios, alguns ...pouco simpáticos !”
O que eu não consigo, por muito que o tente,é perdoar ao Rui Veloso ( que adoro!)...a malfadada “Valsinha das Medalhas”, onde contraria tudo o que aqui afirmei. Ao menos...”safa-se” a música, que é gira. :)


Foto: Tenente Coronel COMANDO Marcelino da Mata


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